Há cerca de dois anos, uma colega, ao ver alguns dos meus bolos, referia, com um semblante deveras triste: - Que pena não ser criança para poder ter um bolinho destes para o meu aniversário!...
Por alguns momentos, aquela frase tocou-me profundamente, já que, uma das coisas que nunca consegui ultrapassar (e felizmente) foi a capacidade de abdicar de ser criança...
Foi isso que me levou a escolher para o seu aniversário este bolo, com o intuito de a levar aos lugares da sua infância, sabendo de antemão que nem sempre uma imagem pode permitir esse voo até à Terra do Nunca.
Para mim, habituada que fui, desde criança, a largar amarras e voar a bordo deste papagaio, nada mais simples do que me deixar levar pela imaginação e, em segundos, volto à meninice, relembrando com detalhe, os cheiros, as cores, os sons que me embalavam nesses momentos mágicos.
Ontem fiz algo que há muito tempo desejava - voltar a Entre-Pontes...
Embora tenha nascido em Aveiro, vivi toda a minha infância em Vale de Cambra, entre o Pinheiro Manso, Entre-Pontes, Areias e Castelões, numa pequena casa junto ao rio, perto de um açude, que minuto a minuto mudava a sua panorâmica como se de uma moldura viva se tratasse.
Habituei-me desde cedo a respeitar a presença próxima da água. Para isso contribuiu a insistência do meu pai em me ensinar a nadar, talvez preocupado com a proximidade desse rio, ao qual tínhamos acesso a partir de um lavadouro, ao fundo do quintal, lavadouro esse que mais tarde transformávamos em prancha de piscina natural durante os meses de Verão, da mesma forma que o coradouro, circundado de lírios e jarros, ao lado, era o espaço ideal para uma "pescaria"...
Por vezes, no Verão, entrávamos para a zona de terra firme do rio, através de um caminho estreito e sinuoso de pedras, onde abundavam as amoras, que íamos colhendo das silvas, e que deixavam marcas nos rasgões dos bibes brancos imaculados, que repentinamente se transformavam em padrão de bolas arroxeadas.
A casa era mágica!...
Situada num primeiro andar de um edifício com cave, na borda do rio, a vista era paradisíaca: pontes, campos de erva verdejante a perder de vista, ladeados por filas de vinhas que os emolduravam e serpenteavam rio abaixo.
À noite, o som da água era entre-cortado pelo coaxar das rãs, ou pelas mós dos moinhos, já que praticamente não havia carros a passar naquela rua. Havia apenas a camionete que ia recolher o leite nos postos de recolha e que passava pontualmente à mesma hora, durante a tarde, obrigando-nos assim a interromper o jogo da corda, do berlinde, da macaca, ou simplesmente andar de patins ou bicicleta, isto mais tarde, quando a rua foi finalmente alcatroada.
Este era o nosso dia-a-dia, depois das aulas, quando nos portávamos bem!...
Outros dias havia em que as brincadeiras se tornavam deveras preocupantes, e aí prevalecia a lei da época, a surra dada na hora, que era infalível, como daquela vez em que nos escondemos durante horas, enquanto ouvíamos berros na vizinhança e uma agitação fora do normal. Estávamos escondidas atrás de um armário, enquanto toda a gente nos procurava junto às margens do rio, temendo o pior...
Éramos endiabradas e as amigas e amigos que nos acompanhavam davam sempre cobertura às nossas loucuras, como quando unimos três escadas de vindima para entrar por uma janela, para irmos buscar os fatos de banho, enquanto os nossos pais, em Aveiro, nos julgavam em casa dos avós, e os nossos avós, crédulos, nos imaginavam em companhia da Joaquina, a empregada, que teria voltado mais cedo da feira da vila.
Não éramos meninas exemplares quando transformávamos as bordas do lago do Solar de Areias numa trave olímpica, com o intuito de sairmos dessa faceta completamente encharcadas, quando voltávamos do colégio e enfiávamos nos pés uns patins, junto à rotunda do actual Mercado, e descíamos, rua abaixo, para nos estatelarmos, com os joelhos esmurrados, os pulsos abertos, a pasta para um lado, os livros espalhados, os patins a sobrevoar-nos as cabeças, com as rodas em movimento uniformemente acelerado, junto à rotunda dos Irmão Mecânicos - a actual Prio!
E agora? O que podemos nós oferecer às crianças de hoje?
Tomar banho no rio?! Nem pensar! Está poluído. Fazer bolinhos de areia ou terra causa alergias. Brincar na rua é perigoso e as crianças podem esmurrar os joelhos, ou lascarem uma unha. É preferível deixá-las em casa, "acompanhadas" pelos jogos de consola que as atrofiam e não as ensinam a viver em grupo, a compreender o outro, a saber colocar-se no lugar do amigo.
Na verdade, actualmente, as crianças não brincam: têm muitos brinquedos e não sabem brincar, porque os brinquedos que lhes dão servem apenas para as formatar e as adaptar à sociedade em que estão inseridas. Não imaginam, não brincam ao faz de conta, espirram ao menor contacto com a Natureza, como se tivessem de viver numa bolha que as transforma em prisioneiras no Castelo Dourado dos seus próprios caprichos, e muitas vezes dos seus pais que, julgam encontrar nos ATL's a solução para todos os problemas.
Será que estes pais já se esqueceram da sua infância e dos momentos em que guardavam O Brinquedo e
ao qual se emprestava um valor afetivo e que mantinham num local secreto?: a vassoura que de
cavalo se transformava em espada, para, logo de seguida, ser a varinha mágica da fada que punha
finalmente fim à contenda da disputa entre “tu agora és o pirata e eu sou o bom”,
subvertendo-se a ordem, visando a compreensão da mesma, fazendo-se uso dos seus próprios
referênciais - uma fantasia do real –, brincadeiras essas em que o tempo linear é suprimido em
detrimento de um novo e em que tudo se iniciava com “Era uma vez”.
A falta de imaginação actual que tanto prejudica os preocupantes índices de leitura, parece encontrar a sua raiz nesta falta de interacções com os pares ou mesmo com os adultos
ou familiares próximos, fazendo crer que muitas crianças, mesmo no corre-corre a que estão sujeitas entre as várias
actividades que praticam, podem “andar solitárias entre a gente”, o que mais uma vez nos
remete para a questão da privação do brincar e das várias consequências que daí poderão
advir, algumas delas já observáveis em grande parte das escolas - comportamentos
compulsivos e violentos entre pares ou mesmo a hiperactividade.
Será isto que queremos para as nossas crianças? Uma geração que, cada vez mais, consegue ser menos saudável que a geração anterior?
Cedo começam a ser dependentes de ritalina, como se essa fosse a forma ideal de as manter sociáveis, esquecendo que a raíz do problema poderá tão só em deixá-las brincar com os seus pares, e dar-lhes tempo para se expandirem.
Deixem as crianças brincar e, estou certa, não terão mais energia para estarem a jogar na consola até às tantas da manhã, bem como se acabarão os problemas de aproveitamento e comportamento.
Há momentos referi que "aquela casa era mágica", mas mágicos foram, também, aqueles momentos de antigamente...

