A questão da leitura entre as crianças e jovens não é um problema recente.
Efectivamente, motivar um adolescente para a leitura de uma obra obrigatória e longa não é tarefa fácil, principalmente quando se trata de algo que remete para uma realidade que não é mais a sua.
Voltar ao Séc. XIX, a uma época tão distante, não se consegue apenas com a visão de um filme, ou uma visita de estudo. Temos de interiorizar, viver, fazer parte dessa história e, só assim, podemos esperar que estas crianças abstraiam e imaginem cenas, linguagem, entranhem essa época e essas personagens. Nada como viver a história!
Lembro-me perfeitamente dos vários Jantares Queirozianos que organizei na escola,.
Sim, eu sou professora... e muitas vezes me debati com esses problemas que julgo serem comuns a todos.
Não é minha intenção aqui apresentar receitas, apenas partilhar vivências, deixando aos leitores a tarefa de imaginarem quão gratificante poderá ser para nós e para os nossos alunos transformar toda aquela plateia em actores/leitores, muitas das vezes sem que eles se dêem conta de que estão a
ler.
Já lá vão alguns anos, talvez uns 14, quando um dia eles me comunicaram que não iam ler "Os Maias" e que se ficariam pelos caderninhos amarelos, caderninhos esses que eu logo referi que eram óptimos para fazer barquinhos de papel ou
origamis.
- Tudo menos ler esse calhamaço - diziam eles.
- OK! Não querem ler, não leiam!...
- Mas vamos ter de fazer qualquer coisa, não é?- diziam eles com uma perplexidade estampada nos rostos, estranhando a minha anuência tão rápida às suas pretensões.
- Sim, é suposto! Estava aqui a pensar que poderiam fazer uma peça de teatro para introduzirem, como surpresa, no Jantar Queiroziano, se estiverem na disposição de participar. Vai ser um Jantar a rigor, roupa da época, logo não sei até que ponto estarão interessados.
Como devem saber, há referências e descrições de inúmeros jantares na obra de Eça. Já fizemos um apanhado das possíveis ementas e, a vocês, caberia a tarefa de criarem a tal peça em contexto de jantar, peça em que colocariam todas as personagens da obra. Claro que na obra não vão encontrar um texto capaz de as reunir a todas, mas por certo que não será difícil estudarem uma personagem e imaginar uma situação em que a colocariam a contracenar com as demais!...
- Aceitam o desafio?
- Claro que aceitamos! É bem mais divertido do que ler aquilo tudo - diziam eles, enquanto eu engolia em seco e pensava na difícil digestão que se avizinhava ao terem de
devorar "Os Maias".
Os CEf's de Restauração/Cozinha vão tratar das sobremesas: Lampreia de Ovos, Toucinho do Céu, Arroz Doce e um bolo de andares, tipo Vitoriano, tão usual na época. Também eles vão servir o jantar e já estão a aprender a fazer as vénias e comportar-se como na época! Quanto ao guarda roupa, tudo isso já está a ser tratado através do Museu do Traje que nos colocou em contacto com um Museu Britânico para os modelos dos librés. Aproveitem o fim de semana para pesquisar uma série Britânica "Upstairs,_Downstairs". Encontrarão lá muita coisa que pode ajudar na composição das personagens, nomeadamente guarda roupa. E não se esqueçam que para a semana já quero um apanhado das personagens!
Nas semanas que se seguiram, via uma turma empenhada, discutindo possíveis soluções e formas de abordar o texto, surgindo, de onde a onde, algumas questões: "Eu não encontrei a Lampreia de Ovos n' "Os Maias"!... Nem eu o Arroz Doce!... E onde pára o Toucinho do Céu?
- Pois não! Não estão lá! Para isso teriam de pesquisar noutras obras, como "Cidade e as Serras", "O Primo Basílio" e " O Crime do Padre Amaro"- referia eu, tentando evitar a todo o custo o termo
ler, antes que se dessem conta que o acordo aceite em nada lhes era favorável.
No dia do Jantar, eu tinha uma turma vestida a rigor, onde não faltaram umas espanholas com um sotaque quase nativo, e um guião de tal forma perfeito que muitos colegas me perguntaram de que obra o tinha retirado.
- Da cabeça deles! Eles não queriam ler "Os Maias", mas na verdade
devoraram quatro obras de Eça neste jantar!
"E no centro, muito proeminente numa travessa,
enroscava-se uma lampreia de ovos medonha e bojuda, com o ventre de um
amarelo ascoroso, o dorso malhado de arabescos de açúcarc, a boca
escancarada; na sua cabeça grossa esbugalhavam-se dois horríveis olhos de
chocolates; os seus dentes de ameêndoa ferravam-se numa tangerina de chila; e
em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam." in "O Primo Basílio";
"— Vai um docinho, senhor pároco? disse Amélia, apresentando-lhe o prato. São da Encarnação, muito fresquinhos.
— Obrigado.
— Aquele ali. É toucinho do Céu.
— Ah! se é do Céu.., disse ele todo risonho. E olhou para ela, tomando o bolo com a ponta dos dedos." in "O Crime do Padre Amaro".