sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"À Lareira"


Hoje vou-vos falar da minha escola!
Tenho saudades da minha antiga escola que, apesar de ter telhados de amianto, permitia um contacto mais directo com os colegas
Tratava-se duma escola com dois pisos, que se espraiava por um vasto espaço envolvente repleto de vegetação e de enormes árvores, onde crianças e adultos se deleitavam nos intervalos.
Hoje ( há 2 ou 3 anos), temos uns cubos de betão, com imensos vidros - embora não tenhamos o homem da Coca Cola Light para os limpar-, uma entrada digna de um Hotel ***** onde não falta um cubo que desafia as leis da gravidade. Não temos telhados de amianto, mas continua a chover lá dentro e as infiltrações têm uma predilecção especial pela Biblioteca, com a agravante do piso ser demasiado escorregadio. Para completar, e como o corpo docente é muito jovem - variando entre maiores de 45 e os 63, temos uma quantidade razoável de pisos e escadas, penso eu, com a intenção de manter em forma os docentes, que se arrastam, nos intervalos de 5 minutos, carregados de livros e papéis!  Sim, de hoje em dia, uma escola que se preze para além de transmitir conhecimentos, deve, no mínimo, fazer relatório de tudo o que faz... em papel... que ninguém lê...
Resolveram de uma só vez o problema do custo do ginásio dos docentes. Subir 5 ou 6 andares com escadas estreitas, em que alunos e professores se atropelam com o intuito de chegar a tempo à meta- desculpem, sala de aula, quem tem fôlego para, no fim das aulas e reuniões, ir "malhar" para o ginásio?






Perguntar-me-ão a razão desta introdução e qual a possível relação com bolos, mas já lá vamos.
Há uns anos, uma senhora a quem chamavam de Ministra da Educação - ainda não compreendi bem a razão de o ser já que não primava pela educação
- resolveu afirmar que " as escolas secundárias estão há muito tempo sentadas à lareira», ... «Temos professores a mais e com fracas competências», ...
A minha intenção é precisamente demonstrar o contrário, nem que para isso tenha de ser um bocadinho irónica e irreverente. Mas ela merece!...
No final do ano, é usual a festa do porco no espeto, da mesma forma que se confeccione um bolo para marcar esse evento.
Este foi o bolo de 2015!
Nele, os porquinhos deliciavam-se, não à lareira, mas em inúmeros chiqueiros de lama, onde não faltavam espreguiçadeiras, à sombra de chapéus de sol, uma vez que a maioria dos espaços verdes foram destruídos.


Dada a extensão do SPA, tivemos o cuidado de assinalar com setas que o movimento obrigatório era ascendente ou descendente, bem como a inclinação de 40%, não fosse algum porquinho incauto ter a curiosidade de entrar e esparramar-se nas inúmeras escadas que se encontram à entrada, i. e. , passar do 0 ao -2 à velocidade da luz...
 
Para facilitar as descidas, nada melhor que escorregas. Já que temos a fama de brincar tanto, tenhamos  também o proveito!
Deixo-vos com algumas fotos que poderão dar uma visão mais clara da forma criativa como conseguimos, finalmente, dar razão àquela tão badalada frase da Senhora Ministra....
Não estará perfeito como gostaria, mas razões de força maior houve para que tal não fosse possível.
Foi esta a forma como vi  a Escola sede  do Agrupamento de Escolas de Búzio


domingo, 9 de outubro de 2016

O Sapato Vermelho




Quando falamos de sapato, imediatamente o nosso imaginário nos transporta ao sapato da Cinderela. 
Não, este sapato de que hoje vamos falar não é o sapato da Cinderela, até porque o da Cinderela era de cristal, e muito menos o de Jessica Rabbit, embora ficasse perfeito com aquele vestido sexy! Mas afinal que sapato é este?
Este tem uma história, aliás como todos os bolos que crio.
Para variar, vou deixar o "Era uma vez..." e vamos directos ao assunto.
Há muitos, muitos anos, vi um filme de que alguns ainda se lembrarão - The Wizard of Oz, do qual vou deixar aqui umas imagens para o tonar mais presente. Afinal, todos se lembram da música, mas talvez o enredo do filme esteja mais distante, daí a dificuldade em encontrarem semelhanças entre a história e a razão de ter concebido este sapato.
Há momentos na vida em que temos de tomar decisões, por muito que elas nos custem, nem que para isso seja necessário um catalisador. O sapato vermelho teve mesmo essa função.
Claro que nem todas as reacções surgem no momento em que as desejamos, nem o sapato vermelho terá tido essa função imediata. Tudo tem o seu timing e, digamos, talvez ele tivesse a função de alertar e não desencadear- um catalisador tardio, talvez.
Mas voltemos ao filme. Dorothy, na sua procura do castelo de Esmeralda, encontra vários amigos - um leão que não consegue comportar-se como tal, já que lhe falta a coragem,  um espantalho sem cérebro e o homem de lata que anseia por um coração. Nessa jornada, ela é auxiliada pela fada que lhe vai permitir chegar ao seu destino graças aos sapatos vermelhos, atitude que a bruxa má tenta a todo o custo evitar.
Follow the yellow brick road!" - foi essa a mensagem que eu deixei para uma amiga no seu aniversário de 2015.
Espero sinceramente que ela tenha encontrado o Castelo de Esmeralda!... 
A ver vamos... mas creio que já encontrou a forma de lá chegar...





"Somewhere over the rainbow
Blue birds fly
And the dreams that you dreamed of
Dreams really do come true ooh oh"

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Queres Vir Tomar um Chá?




Hoje decidi fazer um convite!
Não, não se trata de um convite de cortesia... É apenas uma forma de tagarelar um bocadinho com um grande amigo - o Pedro Suárez- deveras entendido em chá, conforme podem ver no seu blog  e, de certa forma, fazer uma breve viagem no tempo.
Perguntarão a razão deste convite, mas tal prende-se, obviamente, com a nova ilustração do meu blog, por ele concebida.
Ao olhar aquela ilustração, fui tele-transportada aos lugares da minha infância e fiquei sem palavras!
Repentinamente me imaginei na varanda da minha casa de infância, com vista para o rio, onde servia um chá às minhas bonecas, em chávenas de porcelana, onde não faltava uma mobília de verga azul clara que o meu pai tinha trazido da Madeira... agora bastante desbotada já que serviu três gerações...
As bonecas tentavam acomodar-se naqueles pequenos cadeirões, enquanto eu, fazendo as honras da casa, lhes servia o chá e biscoitos...
Já não tenho o bule nem o açucareiro. Restam-me apenas duas peças, tal foi o uso que lhes dei, mas faço questão de as usar.
A mesa já está posta!
Compreenderás que vou usar o bule da tua ilustração, aquele bule onde cabe todo o Universo, donde emanam vapores que nos levam nas asas das borboletas para a Terra do Nunca. Não terás biscoitos, mas prometo-te que ficarás deliciado com aquele bolo que eu e o ratinho confeccionámos, com todo o carinho, à luz dos pirilampos e daqueles lampiões de rebuçado!
Olharemos a paisagem e, lá ao fundo, encontraremos toda a magia de um bosque, aquela magia que o Natal nos traz, nem que para isso sejamos obrigados a usar aquela bengala às risquinhas...
Será a Floresta do Chocolate? Não interessa se a floresta é de chocolate, porque a cada chávena teremos sempre uma Fenix que renascerá e trará com ela novas história para contar...
E isso será a cereja no topo do bolo!...
Aceitas o convite?







terça-feira, 4 de outubro de 2016

Devorando "Os Maias"...



A questão da leitura entre as crianças e jovens não é um problema recente.
Efectivamente, motivar um adolescente para a leitura de uma obra obrigatória e longa não é tarefa fácil, principalmente quando se trata de algo que remete para uma realidade que não é mais a sua.
Voltar ao Séc. XIX, a uma época tão distante, não se consegue apenas com a visão de um filme, ou uma visita de estudo. Temos de interiorizar, viver, fazer parte dessa história e, só assim, podemos esperar que estas crianças abstraiam e imaginem cenas, linguagem, entranhem essa época e essas personagens. Nada como viver a história!
Lembro-me perfeitamente dos vários Jantares Queirozianos que organizei na escola,.
Sim, eu sou professora... e muitas vezes me debati com esses problemas que julgo serem comuns a todos.
Não é minha intenção aqui apresentar receitas, apenas partilhar vivências, deixando aos leitores a tarefa de imaginarem quão gratificante poderá ser para nós e para os nossos alunos transformar toda aquela plateia em actores/leitores, muitas das vezes sem que eles se dêem conta de que estão a ler.
Já lá vão alguns anos, talvez uns 14, quando um dia eles me comunicaram que não iam ler "Os Maias" e que se ficariam pelos caderninhos amarelos, caderninhos esses que eu logo referi que eram óptimos para fazer barquinhos de papel ou origamis. 
- Tudo menos ler esse calhamaço - diziam eles.
- OK! Não querem ler, não leiam!...
- Mas vamos ter de fazer qualquer coisa, não é?- diziam eles com uma perplexidade estampada nos rostos, estranhando a minha anuência tão rápida às suas pretensões.
- Sim, é suposto! Estava aqui a pensar que poderiam fazer uma peça de teatro para introduzirem, como surpresa, no Jantar Queiroziano, se estiverem na disposição de participar. Vai ser um Jantar a rigor, roupa da época, logo não sei até que ponto estarão interessados.
Como devem saber, há referências e descrições de inúmeros jantares na obra de Eça. Já fizemos um apanhado das possíveis ementas e, a vocês, caberia a tarefa de criarem a tal peça em contexto de jantar, peça em que colocariam todas as personagens da obra. Claro que na obra não vão encontrar um texto capaz de as reunir a todas, mas por certo que não será difícil estudarem uma personagem e imaginar uma situação em que a colocariam a contracenar com as demais!...
- Aceitam o desafio?
- Claro que aceitamos! É bem mais divertido do que ler aquilo tudo - diziam eles, enquanto eu engolia em seco e pensava na difícil digestão que se avizinhava ao terem de devorar "Os Maias".
Os CEf's de Restauração/Cozinha vão tratar das sobremesas: Lampreia de Ovos, Toucinho do Céu, Arroz Doce e um bolo de andares, tipo Vitoriano, tão usual na época. Também eles vão servir o jantar e já estão a aprender a fazer as vénias e comportar-se como na época! Quanto ao guarda roupa, tudo isso já está a ser tratado através do Museu do Traje que nos colocou em contacto com um Museu Britânico para os modelos dos librés. Aproveitem o fim de semana para pesquisar uma série Britânica "Upstairs,_Downstairs". Encontrarão lá muita coisa que pode ajudar na composição das personagens, nomeadamente guarda roupa. E não se esqueçam que para a semana já quero um apanhado das personagens!
Nas semanas que se seguiram, via uma turma empenhada, discutindo possíveis soluções e formas de abordar o texto, surgindo, de onde a onde, algumas questões: "Eu não encontrei a Lampreia de Ovos n' "Os Maias"!... Nem eu o Arroz Doce!... E onde pára o Toucinho do Céu?
- Pois não! Não estão lá! Para isso teriam de pesquisar noutras obras, como "Cidade e as Serras",  "O Primo Basílio" e " O Crime do Padre Amaro"- referia eu, tentando evitar a todo o custo o termo ler, antes que se dessem conta que o acordo aceite em nada lhes era favorável.
No dia do Jantar, eu tinha uma turma vestida a rigor, onde não faltaram umas espanholas com um sotaque quase nativo, e um guião de tal forma perfeito que muitos colegas me perguntaram de que obra o tinha retirado.
- Da cabeça deles! Eles não queriam ler "Os Maias", mas na verdade devoraram quatro obras de Eça neste jantar!




"E no centro, muito proeminente numa travessa, enroscava-se uma lampreia de ovos medonha e bojuda, com o ventre de um amarelo ascoroso, o dorso malhado de arabescos de açúcarc, a boca escancarada; na sua cabeça grossa esbugalhavam-se dois horríveis olhos de chocolates; os seus dentes de ameêndoa ferravam-se numa tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam." in "O Primo Basílio";

"— Vai um docinho, senhor pároco? disse Amélia, apresentando-lhe o prato. São da Encarnação, muito fresquinhos.
— Obrigado.
— Aquele ali. É toucinho do Céu.
— Ah! se é do Céu.., disse ele todo risonho. E olhou para ela, tomando o bolo com a ponta dos dedos."
in "O Crime do Padre Amaro".









domingo, 2 de outubro de 2016

O Primeiro "Voo"...


Era uma vez - todas as histórias começam com era uma vez….- uma menina que tinha cinco anos e foi a uma festa de aniversário de uma amiguinha.
Quando lá chegou ficou deslumbrada com um bolo - uma piscina onde não faltavam meninos a nadar em fatos de banho e bóias coloridos.
A partir desse dia, a mãe, tentando dar asas àquele imaginário, confeccionava bolos de aniversário lindos: borboletas e leques, formas essas que a menina, passados 50 anos, continua a guardar religiosamente.
Os anos foram passando e o prazer pela cozinha e por essa forma de arte foram-na acompanhando, com intervalos em que trocava os bolos pelas telas. É que o imaginário de criança nunca a deixou.
Mas será que é isso que se passa na actualidade? Será isso que se passa com as crianças actuais?
Cada vez mais assistimos a um ataque cerrado a tudo o que surge "out of the box", ou porque é perigoso, já que foge à norma, ou porque a sociedade em que vivemos prefere que as crianças-  e serão só as crianças? -  pensem todas em uníssono, como um coro muito bem afinadinho.
Antigamente, tudo servia para brincar.  Hoje, os brinquedos têm duração curta, como se o prazo de validade também a eles se aplicasse.
Onde param os brinquedos de outrora aos quais emprestávamos um valor afectivo tão especial  que os guardávamos em locais secretos?
Onde pára a magia que esses objectos possuíam, permitindo-nos esse "descolar",  o “passar para o outro lado de espelho” – um local sem tempo nem espaço – a “Terra do Nunca” - para podermos finalmente viver aquilo que era para nós uma realidade, uma interpretação que, apesar de colorida com laivos de fantasia, não deixava de ser real – porquanto ela era uma projecção, uma re-criação de algo que foi vivido.
Há uns anos largos, em férias na praia com uma sobrinha, onde não faltaram os bolinhos de areia e os castelos da princesa defendidos pelos fossos das ondas, não pude deixar de me dar conta da necessidade que essa criança sentia de levar a brincadeira até ao fim. Rapidamente fui transportada à minha infância quando criava montanhas  e castelos de puré de batata, árvores e flores de alface e tomate e, a partir daquele prato, "descolava" para o mundo da fantasia...
Então perguntei-me: o que nos impede de pegar em algo de comestível e partir com eles para esse mundo? Vamos levar a brincadeira até ao fim e permitir que as crianças, e quiçá os adultos, reaprendam que um bolo pode e deve ser uma representação com significado, algo que desperte a imaginação, o tal trampolim para o outro lado.
Será assim tão difícil?
A ilustração deste blog, concebida pelo meu grande amigo Pedro Suárez, é a prova inequívoca que, quando se trata de imaginar, não há linhas nem grades que nos possam deter.
Creio que ele não vai ficar muito contente por eu utilizar algo que ele considera um esboço, um rascunho, mas  nada surge por acaso. Esta ilustração é representativa e vai completamente ao encontro do que tinha em mente.
Com este blog, vamos voar um pouco, partir à descoberta do que está por trás da idealização de um bolo, e do que devemos ter em mente quando o queremos criar.
Não se trata de um blog de cake design igual a tantos outros, e são várias a razões para não o ser.
Os meus conhecimentos nessa área são rudimentares e a minha preocupação, quando crio algo, não está na perfeição, mas sim na capacidade que essa obra pode despertar na pessoa para quem o concebo, o simbolismo dos elementos, a harmonia e a estética e, não menos importante, a intensidade e a cumplicidade que se tenciona criar entre a obra e a pessoa que a recebe.
Aqui vamos nós "sentir com" e não  "sentir para"....

Apertem os cintos porque vamos descolar!