Vai fazer um ano que decidi oferecer à minha sobrinha-neta um Carrossel comestível.
Não é que eu tenha uma ligação especial aos carrosséis, salvo os carrosséis da Feira de Março, quando o prazer da vida se resumia a ir à Feira, comer farturas e beber um Sumol, ou uma Laranjina C.
Estava tudo associado, incluindo as brincadeiras em casa dos meus avós, em que não faltavam escorregas gigantes - meros colchões de palha antigos que viviam no sotão -, à espera que as meninas irrequietas os tirassem do seu sossego, tal Quebra Nozes, versão adaptada.
E depois era deslizar pelas escadas abaixo, completamente indiferentes ao som da bengala do meu avô, que saía do seu escritório e nos saudava com um cumprimentos terno: Façam pouco barulho, meus Diabos!
Mas a casa prestava-se a essas brincadeiras de crianças estouvadas. E a verdade é que, durante as férias, ela não tinha sossego. Nem ela, nem os meus avós...
Iniciei este post no blog com uma questão, e está na hora de desvendar a minha opinião sobre o Carrossel da Maria João, a minha sobrinha-neta, e talvez a razão pela qual o escolhi para o seu 9º aniversário.
A minha paixão pelos bolos decorados nasceu quando eu ainda era da idade dela, talvez mais nova, e recordo com uma certa nostalgia até onde o meu imaginário voou quando vi uma piscina com imensos bonecos que nadavam dentro dela. O design tinha sido retirado de um livro brasileiro que lamento nunca ter encontrado no mercado. Nele havia borboletas e leques, casinhas de bonecas, castelos de princesas, uma delícia para o olhar e para a imaginação de qualquer criança.
Foi esse brilho que vi nos olhos dos amiguinhos da Maria João quando o bolo começou a rodar com música de carrossel.
Aceito que, por vezes, nos recorremos de clichés para alimentar esse imaginário, mas o que é uma criança sem princesas e príncipes?
Julgo que, com o tempo, elas terão oportunidade de se dar conta que a vida é, na realidade, um carrossel, mas que também têm a oportunidade de o fazer parar a qualquer momento.
Há momentos em que nos damos conta que a nossa zona de conforto passa pela monotonia, pelo não levantar ondas, pelo ram ram diário, pelo movimento circular de um carrossel. Mas até que ponto isso vai de encontro às nossas necessidades, aos nossos anseios, aos nossos sonhos?
Nada na natureza é estático, e, embora a roda tenha sido um grande avanço, o movimento circular é, por si próprio, pouco criador. O facto de nos fecharmos numa força centripeta, deixa-nos completamente à mercê do veio que nos faz girar.
Pelo contrário, prefiro o movimentos dos vulcões, esse movimento que, no silêncio, vai ganhando forma, vai evoluindo em surdina, até que o momento chega em que a lava sai, deixando-nos um pouco perplexos por essa explosão, e pelo fumo que, por momentos, não nos deixa ver quão bela pode ser a realidade.
Foi assim na pintura ...
Foi assim com o bolo do vulcão...
E creio que também está na hora de eu descer do Carrossel ...

